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sexta-feira, 15 de agosto de 2014





















E EU PASSARINHA...


Ele disse que meus olhos eram lindos
E então me colocou em um belo quarto
A meia luz para melhor me observar

Ele admirou meu canto
E me enjaulou lá no alto de uma linda gaiola
Para que meu assovio ecoasse em sua casa

Era linda a maneira como eu comia
E ele fez questão de escolher meus alimentos
Que ele julgava mais saudável.
Ele me servia
Para que eu não pudesse me esforçar
Meu bico que se alimentou
De grãos moídos  não precisou mais se fortalecer
E foi se moendo também.

Ele elogiou minhas penas
E a maneira como eu gostava de voar
E então cortou as pontas das minhas asas
Para que eu voasse raso e pudesse voltar

O quarto era lindo
A gaiola também
Mas o céu azul me chamava
O sol radiante brilhava
E até as gotas de chuva
eu queria sentir

A porta da gaiola estava aberta

Meu bico moído não servia mais
E me impedia de me alimentar
Meu canto se desacostumou a ecoar
Meus olhos não conseguiam enxergar
na claridade ofuscante das manhãs
E minhas asas já não me levavam tão longe
quanto eu queria

E fiquei por lá,
Eles passarão E eu passarinha
Com medo de voar.



quinta-feira, 31 de julho de 2014


Mais uma:
7 anos
Estuprada
Assassinada

Ela não faz parte
Do seu fetiche
De roupas colegiais

Ela não faz parte
Do seu fetiche
Do “papai chegou”

Ela não faz parte
Do seu fetiche
De garota inocente

Ela não faz parte
Da sua piada
Da sua cultura de estupro
Do seu choro

Ela não pediu
Como nenhuma outra
Ela não tinha que agradecer
Como nenhuma outra
Ela não mereceu
Como nenhuma outra

Enquanto você  Está sentada Fazendo piada Essa garota foi estuprada e Assassinada

E a culpa é de quem? Quem é que banca a cultura do estupro? Quem faz piada da luta? Quem é que consegue achar isso normal? Quem é que tenta encontrar uma justificativa?
Quem? Quem está mais preocupado com meus seios de fora, do que com a vida? Quem foi que acordou que não posso ser dona do meu próprio corpo? Quem foi que me disse que eu não posso andar na rua? Não posso estar nua? Não posso ser criança? Não posso ser mulher? Não posso viver?
Quem tirou de mim minha própria vida antes mesmo de eu nascer?



terça-feira, 29 de julho de 2014



Poliamaremos  ♥ ♡ ♥ ♡♥ ♡♥ ♡♥ ♡♥ ♡♥ ♡♥ ♡♥ ♡♥ ♡♥
♥ ♡

Quem escolheu   

Você com meu eu
Foi o tal de destino
♥ ♡
- Vamos casar
- Onde é que eu assino?
  

♥ ♡
Não tem onde não, moço
É sem burocracia
Aqui é amor
Que nem na magia
Meia-noite te amo
Até o meio-dia.



sexta-feira, 25 de julho de 2014



VADIA!

Pelo estupro
Pela morte
Pelo aborto
A culpa foi minha

Pelo sopro
Pelo abuso
Pelo roubo
A culpa foi minha

A culpa foi minha
Pelo meu Black Power
Cheio, livre, empoderado.

A culpa foi minha
Pelo meu tamanho
“Alta demais”
“Baixa demais”
“Magra”, “gorda”,
“pé estranho”.

A culpa foi minha
Porque ao contrário do que você pensa
Minha genitália não define meu gênero
Nem meu caráter, nem minhas crenças.

Postei minha foto
-VADIA! – Eles gritaram.
Postaram meus vídeos
-VADIA! – Me acusaram.
Sai pelas ruas
-VADIA! – Eles chamaram.

E a culpa foi minha.




ISSO NÃO É UM CONVITE

Meu copo tá cheio, a mesa vazia.
Isso não é um convite
Minha saia tá curta, meus seios de fora e
Isso não é um convite

Eu ando sozinha
Na noite escura
Sem homem nenhum
A me acompanhar
Mas tenha certeza
Na minha cabeça
Não é um convite
Esse meu caminhar

Meu riso tá solto
Meu olhar avalia
E em momento nenhum
Isso é “convidar”

Entrei no metrô
Tumulto, trabalho, suor
Lotação
Em vão me desvio pra
Não lhe encostar
Você me encontra em outro vagão

Aí me pergunto em que ponto da história
Perdi o meu corpo pra população?
Na história do mundo
No conto da vida
Meu corpo se perde
Nessa reclusão



quinta-feira, 26 de junho de 2014


Não Kahlo!
Não Kahlo porque não posso
Não Kahlo porque não deixam
Não Kahlo porque alguém berra
ou sussurra dentro de mim
Não Cale!
 
Não Kahlo porque Maria
Não Kahlo porque Josefina
Não Kahlo porque Carolina
Gritam dentro de mim
Não Cale!

E eu grito grito até ficar rouca
até ficar louca
E não Kahlo
E ás vezes desisto e
me acho pouca 
e me acho louca
Mas depois eu volto e

Não Kahlo

às vezes escrevo assim sem sentido
Mas tenho comigo 
um turbilhão de emoções
Não rima com nada 
Não ama ninguém
Não muda o mundo
Mas não fica mudo
e não Kahla

Ninguém vai ler
Ninguém vai seguir
Nem se perder
nem decidir
Não tem contexto
Nem nexo 
Nem reza
Nem receita
é só pressa 
E brisa
E vontade de gritar
Não Kahlo!


Não tem começo 
Nem vai ter fim
E se está aqui
Esperando findar
Sinto dizer 
Mas não vai rolar
Não Kahlo 

Não vou calar. 

 




quinta-feira, 15 de maio de 2014



Vamos sorrir pra copa
Vem que tá tudo lindo!
Aqui não se mata inocente
Pra PM é tudo bandido

Vamos sorrir pra FIFA
Na nação verde e amarela
Esquece a polícia fascista
Matando o povo na favela

Quem é mesmo o Amarildo?
Jogador de futebol?
Ou será que é o menino
Da esmola no farol?

Ou talvez se chame Jonathan,
Já não me lembro bem.
O foda é que por hora
Já se foram mais de 100.

E de Cláudia a Fabiane
A gente vai gritando Gol
Pra cada corpo uma desculpa
Ou só um “Foi mal fessor”

Vem meu gringo lindo
Vem pagar pela minha bunda
Que já cê já fode o ano inteiro
Vem que a copa ta linda
E ta chovendo dinheiro