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sexta-feira, 25 de julho de 2014



VADIA!

Pelo estupro
Pela morte
Pelo aborto
A culpa foi minha

Pelo sopro
Pelo abuso
Pelo roubo
A culpa foi minha

A culpa foi minha
Pelo meu Black Power
Cheio, livre, empoderado.

A culpa foi minha
Pelo meu tamanho
“Alta demais”
“Baixa demais”
“Magra”, “gorda”,
“pé estranho”.

A culpa foi minha
Porque ao contrário do que você pensa
Minha genitália não define meu gênero
Nem meu caráter, nem minhas crenças.

Postei minha foto
-VADIA! – Eles gritaram.
Postaram meus vídeos
-VADIA! – Me acusaram.
Sai pelas ruas
-VADIA! – Eles chamaram.

E a culpa foi minha.




ISSO NÃO É UM CONVITE

Meu copo tá cheio, a mesa vazia.
Isso não é um convite
Minha saia tá curta, meus seios de fora e
Isso não é um convite

Eu ando sozinha
Na noite escura
Sem homem nenhum
A me acompanhar
Mas tenha certeza
Na minha cabeça
Não é um convite
Esse meu caminhar

Meu riso tá solto
Meu olhar avalia
E em momento nenhum
Isso é “convidar”

Entrei no metrô
Tumulto, trabalho, suor
Lotação
Em vão me desvio pra
Não lhe encostar
Você me encontra em outro vagão

Aí me pergunto em que ponto da história
Perdi o meu corpo pra população?
Na história do mundo
No conto da vida
Meu corpo se perde
Nessa reclusão



quinta-feira, 26 de junho de 2014


Não Kahlo!
Não Kahlo porque não posso
Não Kahlo porque não deixam
Não Kahlo porque alguém berra
ou sussurra dentro de mim
Não Cale!
 
Não Kahlo porque Maria
Não Kahlo porque Josefina
Não Kahlo porque Carolina
Gritam dentro de mim
Não Cale!

E eu grito grito até ficar rouca
até ficar louca
E não Kahlo
E ás vezes desisto e
me acho pouca 
e me acho louca
Mas depois eu volto e

Não Kahlo

às vezes escrevo assim sem sentido
Mas tenho comigo 
um turbilhão de emoções
Não rima com nada 
Não ama ninguém
Não muda o mundo
Mas não fica mudo
e não Kahla

Ninguém vai ler
Ninguém vai seguir
Nem se perder
nem decidir
Não tem contexto
Nem nexo 
Nem reza
Nem receita
é só pressa 
E brisa
E vontade de gritar
Não Kahlo!


Não tem começo 
Nem vai ter fim
E se está aqui
Esperando findar
Sinto dizer 
Mas não vai rolar
Não Kahlo 

Não vou calar. 

 




quinta-feira, 15 de maio de 2014



Vamos sorrir pra copa
Vem que tá tudo lindo!
Aqui não se mata inocente
Pra PM é tudo bandido

Vamos sorrir pra FIFA
Na nação verde e amarela
Esquece a polícia fascista
Matando o povo na favela

Quem é mesmo o Amarildo?
Jogador de futebol?
Ou será que é o menino
Da esmola no farol?

Ou talvez se chame Jonathan,
Já não me lembro bem.
O foda é que por hora
Já se foram mais de 100.

E de Cláudia a Fabiane
A gente vai gritando Gol
Pra cada corpo uma desculpa
Ou só um “Foi mal fessor”

Vem meu gringo lindo
Vem pagar pela minha bunda
Que já cê já fode o ano inteiro
Vem que a copa ta linda
E ta chovendo dinheiro

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Charge Latuff


 GO ! GOL !

ê Brasil, mais uma desgraça. Um negro na praça.
O Brasil comemora e grita Gol. GO!
O São Paulo perdeu, o São Pedro chorou, o São Judas pregou
GO! GOL !

-Não vai ter COPA!
-Não vai ter COTA!
O gringo tá vindo GO! GOL ! 
 

Esconde esse negro
 no camburão
Ou faça uma arte
Põe ele na rua
E tira uma foto 
pra exposição

O gringo tá vindo GO! GOL !
 
 Pinta esse pobre
de verde amarelo
esconde o vermelho
que escorre no chão
esconde a pobreza
mostra a sua bunda
deixa de lado
 a podridão 

O Negro na rua
A garota nua
A cerveja na mão
O negro ali
Nu na calçada
Deixando bem claro
A escravidão
E galera comemora 
Pega ladrão!
Mata!
estupra !
explora !
E o Brasil comemora 
HEXACAMPEÃO !

GO! GOL !

 



 

 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014


Lâmina Negra


Todos os dias são iguais. Dou sinal. Abro o canivete . Desço do ônibus. Atravesso a rua olhando pros lados. . Acelero o passo. Corro dos carros. Cheguei em casa! Ufa ! Não precisei usá-lo.
Hoje o metrô que fica há 20 metros do meu trabalho estava inoperante, tive que andar uns 15 minutos até a outra linha. E lá vamos nós... escolher a calçada mais segura. Olhar pra trás, direita, esquerda em frente e repetir. Passos rápidos, sentidos atentos. Desci as escadarias vazias da São Bento segurando com toda força o canivete nas mãos. Me deu vontade de segurar a lâmina e apertar com aquela mesma força até sangrar e sair de mim toda essa dor. Sem diminuir o passo. Sem diminuir a força, chorei. Chorei por mim e por todas as mulheres que tem que viver em constante estado de pânico. Chorei por essa sociedade Machista ,violenta, nojenta que nos priva da liberdade. Chorei por não poder sair na rua um dia sequer sem carregar comigo o medo. Chorei por todas as garotas mortas, violentas estupradas, amarradas e humilhadas por essa sociedade machista nojenta misógina. Chorei por cada filha, cada mãe e cada irmã que sofre a vida inteira e morre a cada segundo simplesmente pelo fato de ter nascido mulher. Chorei pelo absurdo de não podermos escolher com quem podemos ter nossas relações . Chorei por saber que não podemos escolher nossas roupas, nosso sexo, nosso nome, os lugares que frequentamos e nem a pessoa ou as pessoas a quem amamos. E principalmente chorei por saber que além de mim tantas outras mulheres no mundo são obrigadas a conviver todo dia com medo. A sairem armadas ou amedrontadas pra rua e não conseguem simplesmente viver uma vida normal e fazer suas próprias escolhas. E que isso tudo está bem longe de acabar e que talvez pelo menos três gerações minhas ainda vão passar por isso. Ou quem sabe todas... e saber que se tudo isso acontece a culpa é absolutamente nossa, pois a sociedade ainda teima em culpar a vítima, mesmo sendo uma, e achar que tudo isso é normal.
Eu não vou me conformar enquanto ainda houver mulheres que morrem a todo segundo em cada canto do mundo vítimas do machismo.
"O problema não está em ver machismo em tudo, o problema está em não ver"



Natasha Fernandes